# Liability shift

> Liability shift (transferência de responsabilidade por fraude)

Mecanismo das bandeiras de cartão pelo qual a responsabilidade por uma fraude passa do lojista para o banco emissor quando o 3DS2 foi utilizado. É o principal incentivo econômico para impulsionar o 3DS2.

_Categoria: securite_

---

## Definição

O **liability shift** (transferência de responsabilidade) desloca o ônus financeiro de uma fraude em cartão de um ator para outro, conforme o dispositivo de segurança empregado.

O caso mais conhecido: com o 3DS2, a responsabilidade por uma fraude passa do lojista (responsável por padrão) para o banco emissor. É o principal incentivo econômico para implantar o 3DS2 — muito mais poderoso do que a simples obrigação de SCA da DSP2.

## A regra básica: quem paga a fraude

Sem nenhum dispositivo específico, em uma transação fraudulenta:

- o portador é reembolsado pelo seu banco emissor (DSP2 + SCA no EEE);
- o emissor abre um chargeback contra o adquirente e o lojista;
- o lojista, portanto, suporta a perda (valor + taxas de chargeback).

O liability shift inverte essa última etapa: se o 3DS2 foi usado corretamente, o emissor não pode mais abrir um chargeback por fraude, e é ele quem absorve a perda.

## Os casos de liability shift

- **E-commerce (3DS2)**: uma transação processada com 3DS2 (challenge ou frictionless) é transferida ao emissor nos motivos de fraude; sem 3DS2, o lojista continua responsável. Uma MIT (assinatura) com acordo inicial de SCA e a flag correta também é transferida ao emissor.
- **Presencial (EMV)**: uma transação EMV chip + senha ou EMV NFC é transferida ao emissor; uma transação por tarja magnética quando o EMV era possível mantém o lojista como responsável (o caso da migração EMV dos EUA em 2015).
- **Apple Pay / Google Pay**: DPAN tokenizado + SCA biométrica local → o liability shift recai sempre sobre o emissor, uma das razões da taxa de fraude muito baixa dessas carteiras.

## O que o liability shift não cobre

- **A fraude amigável (friendly fraud)**: o portador contesta uma compra que realmente fez — permanece a cargo do lojista.
- **A fraude APP**: transferências autorizadas, fora do âmbito do cartão, fora do escopo.
- **Os demais motivos de chargeback**: produto defeituoso, não entregue ou assinatura não cancelada continuam a cargo do lojista.
- **Fora do EEE**: o 3DS2 é menos sistemático nos EUA, então o shift é menos automático por lá.

## O cálculo econômico

Para um lojista com 100 M€ de volume anual: uma taxa de fraude de 0,3 % sem 3DS2 (300 K€ de perdas) pode cair, com 3DS2, para 0,05 %, dos quais 150 K€ transferidos ao emissor e ~50 K€ residuais (fraude amigável, fora do escopo). Ou seja, ~250 K€ de economia por ano, muito acima do custo de integração e do leve abandono de carrinho (o frictionless custa < 1 % de queda). Por isso os PSPs impulsionam ativamente o 3DS2, mesmo quando uma isenção de SCA seria possível.

## A evolução desde o IFR / a DSP2

- **Anos 2010** — liability shift para o 3DS1, pouco adotado (UX degradada).
- **2018+** — a SCA obrigatória no EEE torna o 3DS2 o padrão e o liability shift um mecanismo quase universal nos cartões do EEE.
- **2024+** — Visa e Mastercard endurecem as regras de motivos de chargeback para limitar o abuso de fraude amigável.

## O que o liability shift não é

- **Não é uma garantia de fraude zero**: o lojista continua responsável pela qualidade do produto, pela entrega, pelas assinaturas e pela fraude amigável.
- **Não é um mecanismo da DSP2**: é um mecanismo das bandeiras, anterior à DSP2, que a SCA popularizou.
- **Não é universal**: varia conforme a bandeira, a jurisdição e o tipo de cartão.
- **Não é sem contrapartida**: um emissor que sofre fraude demais após o shift pode apertar sua política (mais challenge, menos frictionless).

## No ecossistema PSD2

O liability shift é o alinhamento econômico entre as bandeiras e a SCA da DSP2: torna racional investir no 3DS2, mesmo sem obrigação. É também uma alavanca de qualidade — um ACS frouxo demais no frictionless acaba pagando mais perdas, o que o incentiva a pontuar bem.

```mermaid
flowchart TB
    TX["Transação com cartão"]

    subgraph SECURE["Mecanismos de segurança"]
        DS3DS2["3DS2 (e-commerce)"]
        EMV_CHIP["EMV + senha (presencial)"]
        XPAY["Apple Pay / Google Pay"]
    end

    subgraph FRAUDE["Se a fraude for detectada"]
        AVEC_LS["Com liability shift<br/>= o emissor paga"]
        SANS_LS["Sem liability shift<br/>= o lojista paga"]
    end

    EXCLUS["Fora do escopo:<br/>fraude amigável, fraude APP,<br/>defeito de produto, assinatura"]

    TX --> SECURE
    SECURE -->|"Se OK"| AVEC_LS
    TX -->|"Se não houver 3DS2 / sem EMV"| SANS_LS
    EXCLUS -.->|"Sempre o lojista"| SANS_LS
```

## Exemplos concretos

- **E-commerce com 3DS2**: uma compra de 200 € na Cdiscount com 3DS2 frictionless; em caso de fraude comprovada, o emissor reembolsa o portador sem poder abrir chargeback — ele suporta a perda.
- **E-commerce sem 3DS2**: um lojista que contorna o 3DS2 sofre um chargeback por fraude bem-sucedido e perde os 200 €.
- **Migração EMV nos EUA**: desde outubro de 2015, uma fraude por tarja magnética quando o EMV era possível é transferida para a parte que não migrou — o que acelerou a migração das maquininhas norte-americanas.
- **Apple Pay**: uma transação fraudulenta permanece a cargo do emissor (DPAN + SCA biométrica), com uma taxa de fraude particularmente baixa.
- **Fraude amigável**: um pai contesta 50 € na Roblox pagos pelo filho — não coberto, a cargo do lojista.
- **PSPs que otimizam**: Stripe Radar, Adyen RevenueProtect e Checkout.com adicionam um scoring de fraude do lado do lojista para evitar a fraude amigável e arbitrar entre 3DS2 e isenções.
- **Custo**: o liability shift transfere vários bilhões de euros de fraude dos lojistas para os emissores a cada ano no EEE, que o compensam com o intercâmbio e o scoring de risco.

## Fontes

- [EMV Liability Shift Counterfeit Fraud Liability Shift — EMVCo](https://www.emvco.com/about/liability-shift/) — EMVCo
- [3-D Secure (Visa Secure / Mastercard Identity Check) — overview](https://en.wikipedia.org/wiki/3-D_Secure) — Wikipedia
- [Strong Customer Authentication — Regulatory Technical Standards](https://www.eba.europa.eu/regulation-and-policy/payment-services-and-electronic-money/regulatory-technical-standards-on-strong-customer-authentication-and-secure-communication-under-psd2) — European Banking Authority

---

Fonte: https://openfinanceguide.com/pt-br/glossary/liability-shift
